3096 DIAS (3096 days) – Natascha Kampusch

Publicado: 19 de março de 2011 em Autores que não são escritores de Thrillers
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Editora: Verus

“Chega um momento em que o trauma é tão grande que mesmo o mundo exterior não produz alívio, mas se torna um terreno ameaçador associado ao medo.” Natascha Kampusch
O livro, baseado em relatos de Natascha e no pouco que restou de seus diários de cativeiro, foi escrito com a ajuda de duas jornalistas – e conseguiu mostrar, em 225 páginas, um retrato trágico e fiel do drama por ela vivido.
Sempre que leio algum livro, vou marcando os trechos importantes ou interessantes, e fazendo um histórico de leitura, aos poucos, que depois se transforma numa resenha organizada cronologicamente.

Neste caso, não consegui, porque tinha, praticamente, de marcar todas as páginas do livro – tal a riqueza de detalhes de visões da alma humana, aqui mostrada.

Natascha Kampusch quando foi raptada

No início, Natascha conta de sua vida com a família, na Áustria e Hungria de 1998, dias antes do fato ocorrido. Nestes trechos, podemos vislumbrar a criança que já não vivia uma vida muito feliz, cercada de problemas familiares e relegada a segundo, terceiro ou outros planos, em meio à crise conjugal de seus pais.
A relação de dependência começa a se desenvolver, entre sequestrador e seqüestrada, através da recompensa da comida e filmes, livros, e da necessidade de companhia – até mesmo, de afeto e aprovação. Wolfgang era o único adulto presente, a única autoridade a ser obedecida, o único dono absoluto de seu destino.
Jogos de negação, mentira e dominação eram realizados o tempo todo, entre os dois – chegando ao ponto de não sabermos mais quem era a vítima e quem era o algoz. Até ler para a menina dormir, à noite, ele fazia. Chega-se, com o tempo, à idéia dele ter tido a necessidade de criar uma imagem, uma pessoa a quem dominasse e que precisasse dele para tudo, uma bonequinha de barro a quem ele dera a vida e para quem ele significasse toda a diferença. Tal qual Pigmalião entalhou no mármore, a sua mulher perfeita. Para isso, Wolfgang planejou e chegou a construir o cativeiro, com paredes anti-ruído, como um abrigo nuclear, indevassável, onde aconteciam cenas absurdas e inimagináveis. Até mesmo, com o uso de computadores baratos.

cartaz de Procura-se!

Impressionante a quantidade de casos de rapto seguido de morte com violência sexual, com crianças, na Áustria – e pensar que é um país do chamado 1º mundo.
A descrição da cidade e da residência da família, ajuda a organizar o cenário de tristeza e solidão em que vivia. E ajuda a entender o que a menina pensava, no momento em que ocorre o rapto. “Pedi e obtereis”.
Se soubéssemos obedecer a nossos instintos, tanta coisa poderia ser evitada…
Muita gente deve ter se perguntado porque ela não conseguia fugir, nos momentos em se encontrava fora do cativeiro, mas a lavagem cerebral que recebia, de que seus pais não a amavam, pois não a tinham vindo resgatar, era muito poderosa e paralisante.
Não se consegue imaginar como Natascha sobreviveu aos efeitos do confinamento de 8 anos, como se pode perceber, da lista de conseqüências para o organismo, oferecida por Charles Dickens. “Chega um momento em que o trauma é tão grande que mesmo o mundo exterior não produz alívio, mas se torna um terreno ameaçador associado ao medo.” Natascha Kampusch

o raptor Wolfgang

A tentativa de transformar Natascha, em sua obra particular, através da troca de seu nome e atribuição de funções domésticas e braçais impensáveis para uma criança, foi um paradoxo que trouxe para ela, a força necessária para a sobrevivência e futura fuga. “Com as terríveis experiências no cativeiro, aprendi a ser forte.” Natascha Kampusch
Começam as torturas e abusos físicos – embora a menina não deixe muito claro se houve abuso sexual, em algum momento, pedindo para cobrir com uma cortina, pelo menos essa parte de sua história, a ser mantida privada.
A consciência inicia o processo de separação do corpo físico, e criação de uma segunda “persona”, numa tentativa de sobreviver à dor e ao medo. Para melhor entender o tema, sob a ótica da psicologia, leiam Sybil. Para melhor entender o tema, sob a ótica do espírito, leiam Kardec.”
“Para os que a rotulam de sofrer da “Síndrome de Estocolmo” (fenômeno psicológico em que os reféns manifestam sentimentos positivos em relação aos seqüestradores), não sei o que dizer. Só sei que não sei o que eu faria, na situação dela. Acho que tudo é válido para continuar viva. “A vítima deve ficar destruída e permanecer assim, para que a externalização do mal seja possível. A vítima que se recusa a assumir este papel contradiz a visão simplista da sociedade.” Natascha Kampusch

Natascha quando raptada – o rapto – Natascha quando fugiu

Também não sei o que dizer quanto às justificativas para seus atos, baseadas na infância e adolescência de Wolfgang. Ele era um doente mental – sem a menor sombra de dúvida – capaz de se acreditar um deus egípcio ou um mestre da ficção científica, malgrado sua mal encoberta desnutrição física.
Bom saber que os livros fizeram parte muito importante em sua sobrevivência – dando asas à sua imaginação e a libertando do corpo físico e da dor. Os relatos de agressões físicas são impressionantes. “Então eu falava com meu outro eu, que esperava por mim e me levaria pela mão, não importava o que acontecesse.” Natascha Kampusch

Natascha Kampush

Nem se suicidar ela conseguiu – ato derradeiro de desobediência. Apesar de se encontrar do lado de fora da casa, várias vezes, até mesmo viajando para outras cidades, ela não conseguiu fugir. A prisão interior era mais forte.
Corre!!! – (…) mulher alega ser pessoa desaparecida – polícia tenta comprovar sua identidade (…) – surreal!!!
Se Natascha pensava que seu cativeiro havia terminado, ledo engano… Como ela mesma descreve os acontecimentos pós-libertação, as pessoas são muito estranhas… Se ela for esperta, vai saber aproveitar a oportunidade que a vida está lhe dando e retirar tudo que puder de bom, desse evento terrível. Seja livro, entrevistas, palestras, filme, casamento com milionário – tudo é válido – e ela não pediu por isso – embora nada pague seu sofrimento.

Kate Winslet como Natascha Kampusch – meio passada para protagonizar uma adolescente, não?

Lido em, exatamente, 3horas e 14 minutos – Mesmo sabendo de antemão o final do livro – já que se trata de fato real, não se consegue desprender os olhos das linhas impressas.

Artigo sobre possível comparsa na rapto: http://news.sky.com/skynews/Home/World-News/Natascha-Kampusch-Kidnapper-Wolfgang-Priklopi-Helped-By-Ernst-Holzapfel-Austrian-Police-Suspect/Article/200911215446107?f=rss

Artigo sobre Kate Winslet estrelando o filme de livro: http://www.fotolog.com.br/kate_diva/41349962

booktrailer do livro:

Matéria exibida dia 23-Jan-2011 às 21h44 no Fantástico da TV Rede Globo do Brasil:

A amiga escritora e Skoober, Janda Montenegro, também resenhou o livro, em 08/03/2011:  É realmente complicado avaliar esse livro, mas vamos lá… 
sobre o objeto livro:  Realmente gostei da estética do livro. O papel é bem leve, o que permitiu que eu levasse a obra comigo quando saía de casa. A capa é menos sensacionalista (ou seja, melhor) do que a edição portuguesa. Minha única questão é que durante a leitura, eu tinha que virar o livro de cabeça pra baixo quando o colocava de lado, pois não aguentava o olhar da Natascha me seguindo pela casa… 
sobre o enredo:  Como disse, é realmente complicado avaliar. Como tecer uma opinião sobre a tragédia alheia?
Mais da metade do livro é apenas o primeiro ano de cativeiro e isso me decepcionou de início, pois esperava um relato de todos os anos. Depois, ao longo da leitura, percebi que não tinha como ser assim, afinal, o primeiro ano é o mais importante, é o ano das descobertas entre ambos e após isso, bom, vira rotina né.  Achei muito sensato da parte dela não relatar os abusos sexuais que sofreu, afinal, não era sobre isso toda a questão de seu sequestro. É interessante como, apesar de tudo que aconteceu, apesar de toda a cobertura que a mídia deu, ela ainda conseguiu, acima de tudo, ter um certo controle sobre sua própria vida do lado de fora do cativeiro e manter-se íntegra e fiel aos seus princípios.  Natascha me surpreendeu por mostrar-se extremamente inteligente e forte desde o começo, desde quando ainda tinha 10 anos. É claro que todos os seus relatos dão margem para inúmeras considerações, inclusive sobre a famosa “síndrome de Estocolmo” a qual ela tanto detesta.  É difícil julgar, pois mesmo que eu me coloque no lugar dela, ainda assim não conseguiria ter a mesma perspectiva do que ela porque nunca conseguiria sentir o que ela sentiu porque não vivi o que ela viveu. Mas intimamente fico feliz que ela tenha conseguido a liberdade e, acima de tudo, tenha conseguido sair de lá sendo ainda capaz de sonhar, de acreditar, de perdoar. Tenho certeza de que neste quesito, eu não agiria igual a ela.  Por fim, o que mais assusta é que ao longo da leitura eu ficava pensando “puxa, mas isso aqui é uma história digna de CSI, de Criminal Minds…”. Só que isso é vida real. Eu acompanhei o caso.  Então, a arte imita a vida, ou é o contrário? 
Acompanhe a trajetória de Natascha Kampusch: http://www.natascha-kampusch.at/
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