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21823741_4Romance policial, paródia, crítica ao mundo editorial, humor negro?

                        Uma bióloga planeja matar seu marido com uma picada de cobra num hotel fazenda, onde não pode ser encontrado soro anti-ofídico. Fúlvia Melissa vê no interesse por cobras do escritor José Guber a chance de transformá-lo em cúmplice, já que ele escreve livros sobre assassinatos. Eles acabam se tornando amantes e… o resto vocês podem imaginar.

A revelação de que os romances de banca – seja qual for o gênero – são como uma linha de montagem automática de uma fabriqueta qualquer, cheia de regras de pode-não-pode, não me era desconhecida.  Há umas décadas, trabalhei como datilógrafa (isso mesmo: de máquinas de escrever) para uma senhorinha de cabelos brancos, que escrevia romances de far-west, sob vários pseudônimos diferentes, todos estrangeiros e masculinos – à velocidade de 2 por mês.  Mas a idéia ainda me é bastante inquietante.

Também é deslavada a cara-de-pau de José Gruber, em copiar a trama principal de clássicos da literatura policial internacional, como: O gato preto e Os crimes da Rua Morgue, ambos de Edgar Allan Poe, e O assassinato de Roger Ackroyd de Agatha Christie – e seu editor, Wilmer não reconhecer nenhuma delas, pela sinopse.

Minha primeira impressão, logo na primeira página foi muito ruim.  Embora entenda que a autora queria mostrar logo de cara o caráter dúbio da personagem de Fúlvia Melissa, e embora soubesse sua profissão de pesquisadora de ofídios (cobras e assemelhados), a idéia do coelho sendo devorado impiedosamente, me causou repugnância.

Não gostei da apresentação dos diálogos.  Sei que a intenção foi a de passar uma correria normal na conversa entre dois cúmplices de um assassinato, mas mesmo assim, tinha horas que eu não sabia mais quem falava o que.  Há que se inovar – bem sei – mas também há que se ter um mínimo de respeito pelas regras de pontuação da gramática brasileira.

Não gostei da opinião expressada através do personagem José Gruber, de que donas de casa, manicures e corretores “jamais leriam os clássicos”.  Ao plagiar as verdadeiras tramas, em estórias de banca, ele estaria, na verdade, fazendo-lhes um favor. – não gosto de romances de banca, nunca os compraria, mas respeito minhas amigas que os lêem – e algumas são bastante cultas.

Logo na página 26, eu já tinha previsto toda a trama que ainda viria – com riqueza de detalhes – isso me broxou bastante.  Preciso de ver desafios num thriller – porque, senão, não é um thriller, para mim.

ICE_HUNT_1369509037PA estória do sapo cataléptico eu também já conhecia – acabei de ler e de resenhar um livro maravilhoso de James Rollins, Ice Hunt (resenha no blog: https://houseofthrillers.wordpress.com/2013/06/22/ice-hunt-james-rollins/ ), em que são descritas as características de uma forma de animação suspensa, que certas espécies de tartarugas e rãs experimentam, porém ainda vivos, por conta de uma questão de açúcar em glândulas especiais.

Entretanto, gostei da estratégia bolada pela mãe de José Gruber para enfrentar em alta e viva voz, os vendedores ambulantes de pamonha e similares.

Por fim, para enterrar de vez qualquer resquício de admiração pelo livro, José Gruber declara que é “uma coisa interessante de criar cobras, (…) é que não existe aquela relação pegajosa, aquela necessidade doentia que os gatos tem de afago.” – essa frase, para uma adoradora de gatos como eu, dona de 2 felinos lindos e deliciosamente carentes de afagos, é um pecado mortal!

Sei que serei apedrejada, mas, em resumo, gosto é gosto – e o que é de gosto regala o peito! #prontofalei!

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MORTE_NA_FLIP_1375367241PUm livro que tem a capacidade de fazer com que nos envolvamos com a vida do protagonista, e nos tornemos amigo dele.

                        No segundo romance policial do escritor Paulo Levy, o delegado Joaquim Dornelas usa, mais uma vez, seu faro policial, para desvendar mais um complicado crime, com a ajuda de sua equipe de investigadores (Solano, Caparrós, Peixoto), cuja participação foi bem ampliada.

Voltando para casa em Palmyra, tarde da noite, Dornelas tem a sensação de que está acontecendo ou vai acontecer algo de errado num barco suspeito, que invade o mar.

Dito e feito, ocorre a morte violenta de uma autora mundialmente conhecida, durante o período da FLIP, um dos eventos literários mais famosos do mundo.

Gytha Svensson (ou Geórgia Summers) é escritora de romances de banca melados, com estórias de paixões ardentes e sonhos impossíveis, com títulos como: Paixão no Olimpo; era uma das principais atrações estrangeiras da FLIP; e foi morta com vários golpes de uma arma ainda não identificada.

É também encontrado o corpo do marinheiro do tal barco suspeito, aparentemente, vítima de um acidente.

Assim se desenvolve a trama de Morte na FLIP – um livro que tem a capacidade de fazer com que nos envolvamos com a vida do protagonista, e nos tornemos amigo dele, a ponto de torcermos por seu romance com a legista-chefe do Instituto Médico Legal da região, Dulce Neves, que vai muito bem, obrigado.

Desde o Crime do Mangue, Dornelas havia se transformado numa celebridade na cidade.  É homem, pai, delegado, amante, ex-marido, dono do cachorrinho Lupi, e ser humano. Cheio de atitudes, manias, erros, problemas, equilíbrio e emoção, sua caracterização é extremamente real, e leva o leitor a seu dia-a-dia, na dose certa. (mais…)


REQUIEM_PARA_UM_ASSASSINO_1326653999PPena a leitura ser rápida, porque não dá para largar o livro até o final da estória.

                        “- E a policia militar, vai demorar? É preciso segurar essa multidão.
– Devem chegar logo. Já chamei a perícia e o IML, mas acho que eles não vão poder fazer muita coisa com a maré seca desse jeito.
– Eles vão demorar umas boas horas para chegar aqui. Se a maré subir, vamos perder algum rastro ou marca de como o corpo chegou até lá – disse o delegado apontando para as poças de água suja com natas fruta-cor. – Quanto tempo para os bombeiros?
– Meia hora, uma hora. Depende da papelada.
– Não vai dar tempo. A maré já esta subindo. (trecho da contracapa)

E assim começa a trama!

Uma manhã, na cidade histórica turística à beira-mar, de Palmyra (claramente identificável com Parati), Rio de Janeiro, o delegado Joaquim Dornelas, a caminho da delegacia, se depara com uma multidão observando um corpo de homem atolado na lama, sem sinais de violência – apenas um band-aid na dobra interna do braço esquerdo – e sem identificação.

O delegado Dornelas é um cara comum e humano – amante de uma cachacinha de vez em quando e viciado em novelas e em goró (mingau de farinha láctea – receita no livro), cuida de um cachorrinho e administra uma diarista.  É um policial brasileiro das antigas – que se envolve completamente nos casos que investiga, em busca da verdade – doa a que doer.

E, no momento, ele sofre as dores do abandono da mulher, por conta de sua profissão, e da separação dos dois filhos adolescentes, que estão morando no Rio de Janeiro.

Logo surgem duas testemunhas improváveis (a prostituta gostosona Maria das Graças, irmã do morto; e o vereador escorregadio Nildo Borges) para dar uma luz ou atrapalhar as investigações (depende da visão do leitor), que forma uma teia de grandes dimensões, envolvendo tráfico de drogas, prostituição, o comércio local, a indústria do turismo, a comunidade de pescadores, interesses econômicos, políticos, e românticos – um verdadeiro vespeiro. (mais…)


o-misterio-afranio-peixoto-coelho-netto-viriato-corra_MLB-F-3683692227_012013No Brasil, a primeira narrativa policial de que se tem notícia foi O mistério.  Escrita a oito mãos por Coelho Neto, Afrânio Peixoto, Medeiros e Albuquerque e Viriato Corrêa, a obra chegou ao mercado em capítulos pelo jornal A Folha em 1920.  Ou seja, apareceu 79 anos depois do lançamento do conto fundador do gênero, “The murders in the Rue Morgue”, de Edgar Allan Poe, no qual aparece Auguste Dupin, o arquétipo do que viria a ser o detetive moderno: “uma máquina de pensar, que a partir de vestígios, pistas, indícios, consegue, através de uma dedução lógica rigorosa, reconstruir uma história, um fato passado, e assim descobrir o(s) culpado(s)”.

link para o arquivo em PDF do livro, O Mistério:

http://www.mafua.ufsc.br/numero16/obra_rara/o_misterio.pdf

Seguindo a cronologia das publicações, O mistério surgiu 33 anos depois da criação do famoso Sherlock Holmes por Arthur Conan Doyle e no mesmo ano do lançamento de Hercule Poirot, o detetive idealizado pela “dama do crime” Agatha Christie.

De 1920 até os dias atuais registraram-se incursões brasileiras no gênero policial, porém, o volume da produção até a década de 1970 era relativamente modesto.

O cenário só se alterou a partir dos anos 1970, quando Rubem Fonseca despontou com seu estilo hard boiled –– uma reação realista à artificialidade do modelo clássico, na qual detetives atormentados por problemas com mulheres, bebidas e falta de dinheiro assumem o lugar dos gênios diletantes da narrativa tradicional.

No entanto, a grande mudança no panorama literário se fez sentir na década de 1990, quando o psicanalista e escritor Luiz Alfredo Garcia-Roza apresentou ao público o detetive Espinosa.


AS_DUAS_FACES_DO_DESTINO_1351528630PNão há tanta pressa quando se tem uma expectativa de vida de mais de duzentos anos.” Adriana Modrin

Recebi o livro para resenhar, participando de um “booktour” organizado pelo blog “Minhas Resenhas”, de Danielle Peçanha. Destaco a dedicatória que Landulfo escreveu para os blogs que estão participando deste booktour: “Desejo que os mistérios, a aventura, o romance e, sobretudo, as reflexões, tornem seus dias mais felizes ao percorrerem estas páginas.” – Landulfo Almeida

No livro de estréia do eclético Landulfo Almeida, o leitor é brindado com um misto de thriller com ficção cientifica, cheio de mistérios e adrenalina, passado no Brasil.

O solitário quarentão acionista da Bolsa de Valores, Bruno, que há muito havia desistido de encontrar um sentido para sua vida, é recrutado por uma extraordinária e linda mulher, dona de habilidades incomuns, para lutar contra um poderoso inimigo: Kerligan Amnael, que possui conhecimento, dinheiro, inteligência e vontade, em excesso, para causar enormes prejuízos à humanidade e dominar o mundo. Apesar das dúvidas, Bruno segue seu coração e instintos e abraça o destino ofertado por Adrianna, que o seduz logo no primeiro encontro. Exilado de sua antiga vida, é preparado para uma batalha a ser travada no mundo dos negócios bilionários, das descobertas científicas e médicas de última geração, e da espionagem industrial. Incapaz de lidar sozinho com as incertezas da estória de Adrianna, que alega pertencer a outro universo, Bruno busca em seus melhores amigos do passado a força necessária. Entre sabotagens e assassinatos, amizades serão testadas, paixões nascerão e um inesperado desafio tornará a cruzada de Bruno ainda mais solitária. Pistas sobre os reais planos de Kerligan, revelam um emaranhado de descobertas e uma verdade surpreendente e avassaladora. Próximo ao fim, a coragem e uma descomunal força de vontade serão as principais armas do casal de protagonistas que vivem uma relação envolvente, para tentar salvar o futuro do planeta.

A abordagem é bem intimista desde o princípio do livro, aproximando o leitor da personagem Bruno, humanizando sua apresentação e facilitando a reviravolta que inicia a trama.

Bruno, que leva uma vida sem sobressaltos, um “emprego” pouco comum (na verdade, vive de especulações na Bolsa de Valores e da herança dos pais).

Para ele, os dias se arrastavam, e viver era como obrigação. Há algum tempo não se sentia muito feliz, mesmo tendo amigos queridos e muito dinheiro, e as coisas não tinham mais sentido.  Seu pai faleceu há alguns anos atrás, no Natal, após sofrer uma luta contra o câncer. 

Bruno conhece Adrianna numa tarde de véspera de Natal quando corria pela orla de Salvador. Logo começa a ficar claro que esse encontro não foi exatamente obra do acaso e até a perfeição de Adrianna começa a levantar suspeitas…

Adrianna conta a Bruno que veio de outra dimensão, de um universo paralelo – e que havia injetado em Bruno, sem seu consentimento, um soro usado em seu planeta: Aqua, onde os habitantes conhecem a cura para todas as doenças, como o câncer e a Aids.  O soro daria a ele condições físicas e mentais ampliadas, para ajudá-la em sua missão na Terra – impedir os planos de Kerligan.

Aqua está com problemas, sua tecnologia não garantirá a vida no planeta, com recursos naturais limitados, em menos de mil anos eles ficarão sem oxigênio suficiente para viver.  Para tentar solucionar o problema buscaram opções em estruturas dimensionais paralelas procurando outro mundo habitável. 

E Kerligan, um tirano de Aqua, inconformado com essa situação, veio para a Terra, juntamente com seu comparsa MJ (Milton Jacobs), que pretende dominar e se tornar o soberano absoluto do planeta. Para tanto, adotou uma bela vida falsa, com direito a origem pobre em Bombaim, na Índia.

Por isso, Adrianna precisa que Bruno a ajude a impedir os planos de Kerligan.

Embora Bruno ainda sentisse mágoa por ser manipulado por Adrianna quando se conheceram, ele passou por um treinamento de um ano, para que o soro surtisse efeito em seu organismo e mente. Bruno precisa ter as mesmas capacidades de seu inimigo para enfrentá-lo à altura, especialmente num confronto mais direto.

Para provar a veracidade dos fatos para Bruno, Adriana o ajuda a ganhar rios de dinheiro na bolsa de valores com algumas fórmulas que ela criou.

No decorrer do livro, somos apresentados aos amigos de Bruno, que entram na aventura, com a função de ajudar com as experiências.  Raquel, linda e charmosa, Marco, falso paquerador, Max e Wagner.  Cristiane Templis é uma pessoa altruísta, mas não se esquece de si própria – perfeita para administrar a Cellular Growth – um centro de pesquisas médicas. Natan é o braço direito (e o esquerdo) de Bruno – e que dizer do velho apelido “Zoinho”?.

Com a ajuda de seus amigos, Adriana e Bruno criam o grupo Lima World Investments, empresa voltada para a melhoria de vida das pessoas, tentando ganhar tempo contra o grupo concorrente: Revolutions Power, sob o comando de Kerligan.  Conhecemos, também, Olívia – uma mulher decidida, porém dona de enorme compaixão.

Entre os projetos com que trabalham, estão a cura para o câncer, a leucemia e o Alzheimer; aproveitamento da energia solar, veículos elétricos, equipamentos de informática biodegradáveis – e de quebra, bactérias que literalmente comem a sujeira das roupas.

Até que, em dado momento… as coisas começam a desandar… – avisos inusitados fomentando a discórdia, assaltos e agressões físicas, acidentes de carro, atropelamentos…

Logo nada parecer ser o que é, muitos fatos são revelados, mistérios, segredos…

Destaco, também, a presença da cultura e cenários locais brasileiros.  Sem desmerecer as locações na Londres que eu tanto amo, e que me dão tanta saudade…

O autor se pega muito em detalhes, mas eu gosto – sugestão ao amigo leitor: leia mais Sue Grafton e suas Alphabet Novels, para entender o que digo.

Me engano, ou a descrição do entrevistador Catatau, lembra um famoso entrevistador das altas horas globais, que prima por deixar o entrevistado de saia justa? – pág. 138

Eu mesma queria ter um apartamento como o de Adrianna, em Salvador – pág. 46. Com telas de cristal líquido em todas as paredes, exibindo notícias e alternando telas de pintores famosos.

Mas, fala sério – usar PowerPoint para apresentações em reuniões, a esta altura do campeonato?  Landulfo, já ouviu falar do Prezi? hehehehe

Gostei da diagramação com folhas amareladas (pólem), que muito ajudam os olhos cansados.

Tenho de me referir, também, à Nota do autor logo no início do livro: “esforcei-me para entender, até onde minha capacidade de compreensão permitiu, teorias da física, algumas linhas de pesquisa futurísticas da medicina (…) de modo a transmitir ao leitor a sensação de estar diante de uma hipótese fantástica e nunca de um ridículo absurdo”.

Realmente, tendo em vista o que podemos ler no Prólogo e em outros momentos, como em Destinos Cruzados, houve horas em que fiquei um pouco entediada, com tanta informação didática, embora a trama pedisse a abordagem de certos temas, como a multidimensionalidade, wormholes (buracos de minhocas), nanotecnologia e soros biogenéticos que possibilitam a cura de todas as doenças degenerativas. Mas o autor demonstra que realmente pesquisou, e entende do que escreve, tornando a estória convincente.

Confesso que a leitura não foi rápida.  Certos momentos que envolviam explicações sobre ações e a Bolsa de Valores, embora úteis, me pareceram não exatamente necessários ao desenvolvimento da trama.  Em certos momentos, entediei-me e me vi passando algumas páginas para continuar acompanhando a estória central.

Porém, o final surpreendente do primeiro livro desse autor que tem tudo para ser um sucesso, me trouxe a pergunta: será que teremos uma continuação?  Faço votos.

“Acredito piamente em mudanças se elas são feitas com o objetivo de nos aproximar da felicidade, de criar um ambiente mais propício a ela… Se há alguma chance de sermos mais felizes nossa obrigação nos agarramos a ela com unhas e dentes.” – Bruno

O livro, nas palavras do autor 1:

O livro, nas palavras do autor 2:

86221360869215GLandulfo Costa Alves de Almeida

Nascido em Brasília em 1968, Landulfo Almeida passou sua adolescência e boa parte da vida adulta em Salvador. Graduado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal da Bahia e pós-graduado em Marketing de Serviços, trabalhou como engenheiro de software, foi empresário, professor e executivo. É entusiasta do mercado financeiro e opera na Bolsa de Valores. Apaixonado por ciência, ficção científica e literatura fantástica, procura usar sua experiência eclética e seus diversos interesses para enriquecer suas histórias, criando ambientes e personagens plausíveis e permitindo à imaginação fluir livremente.