Arquivo da categoria ‘Geraldine Brooks’


51zY7Dut3-L__BO2,204,203,200_PIsitb-sticker-arrow-click,TopRight,35,-76_SX240_SY320_CR,0,0,240,320_SH20_OU01_AS_MEMORIAS_DO_LIVRO_1226438532P “No lugar onde se queimam livros, no fim se queimam homens.” – Heinrich Heine

Em primeiro lugar, devo a leitor, uma confidência: dei esse livro de presente para uma amiga querida em seu aniversário – e assim que ela o leu e me emprestou, cheia de elogios, logo quiz roubá-lo de volta.  Mas me conformei em ler e resenhar.

Um dos primeiros códice judaicos religiosos a serem ilustrados com imagens, numa época em que os judeus não admitiam ilustrações de nenhum tipo (iconoclastas), a Hagadá de Sarajevo, criada na Espanha do século XV, sobreviveu a séculos de expurgos e guerras, graças a pessoas de várias crenças, que arriscaram suas vidas para salvá-lo.

A premiada escritora Geraldine Brooks transforma essa a intrigante história desse precioso volume, já considerado desaparacido, inspirada em fatos reais, em um thriller emocionalmente rico.

Já de cara gostei – fui brindada com um mapa ilustrando a trajetória do livro – para acompanhar a leitura ou voltar ao final dela, para poder entender melhor, suas memórias.

A autora já me ganhou logo nos primeiros capítulos com a descrição detalhada das sensações do primeiro e delicado toque da restauradora/conservadora (como ela mesma gosta de se intitular) australiana Hanna Heath, na Hagadá de Sarajevo – os pergaminhos, a lombada, as cores das iluminuras, as pequenas lembranças que o códice guardava, como um segredo – a asa de uma borboleta, os cristais de sal marinho, o fragmento de pena, o pelo de gato, a mancha de sangue e de vinho.

Nas mãos protetoras de Hanna Heath, em 1996, acompanhamos os cruciais momentos da história da Hagadá, através de fascinantes pequenas estórias de amor e de ódio, que celebram o poder das idéias.

A estória se desenvolve em duas direções temporais:

No presente, acompanhamos a audaciosa restauradora em seu primeiro encontro com o livro, e a ajudamos a descobrir seus mistérios.  Ao mesmo tempo, ela conhece Ozrem Karaman, um bibliotecário muçulmano, que o salvou de virar pó, durante um ataque à Biblioteca de Sarajevo.  O previsível clima romântico que começa entre eles, nos traz prazeres e surpresas genuínas, assim como o difícil relacionamento de Hanna e sua mãe, a neurocirurgiã Sarah Heath.  Aos poucos, fui conhecendo o paradeiro dos fechos de prata, a trajetória das ilustrações nos pergaminhos, a razão da encadernação apressada e tosca.

Nessa trajetória, achei desnecessário o melodrama mexicano que se interpõe à delicada narrativa, quanda a protagonista descobre a verdade sobre sua família.

Um muçulmano arriscando o pescoço para salvar um livro hebreu…

Enquanto isso, a minha frente, durante a outra narrativa, no passado, se desenrolava a história das religiões na Idade Média, na época da Convivência e relativa paz entre judeus, muçulmanos e católicos; a luta contra a terrível Inquisição espanhola de Tomás de Torquemada; o significado da mulher moura pintada de açafrão numa cena familiar.  Para mim, como historiadora, as melhores partes do livro, acompanhei a luta de uma jovem judia (Lola) para escapar dos nazistas, durante a Segunda Gerra Mundial; um duelo entre um Censor alcoólatra da Santa Inquisição e um Rabino judeu viciado em jogos de azar, que viviam na Veneza da época da expulsão dos judeus da Espanha; e o apaixonado relacionamento de uma garota moura com sua ama, num harém muçulmano.  Cada cena nos leva à longa história de anti-semitismo no mundo e à luta das mulheres que buscavam sua liberdade – coisa que a heroína Hanna também buscava.

O leitor faz uma viagem pela Sarajevo de 1996 e 1940, Viena de 1894, Veneza de 1609, Tarragona de 1492, e Sevilha de 1480.

Os horrores do passado se repetem no presente – avisos para as novas gerações, sobre a inclinação do Homem de destruir o que não entende.

Fiquei surpresa com a quantidade de elementos envolvidos na restauração/conservação de uma relíquia como aquela – e com minha enorme ignorância no assunto – pergaminhos feitos de pele animal, pigmentos coloridos moídos de pedras preciosas e minerais raros, instrumentos e equipamentos de alta geração.

Ao final do livro, no posfácio, fiquei sabendo da história real por trás da estória que acabava de ler – o heróico bibliotecário britânico muçulmano que o salvou, durante a Guerra da Bósnia.

Geraldine Brooks nos mostra como o destino da Hagadá ultrapassou o preconceito e a perseguição, que envenenaram as cidades e as nações, através do mundo, numa trama habilidosamente bem construída – uma maravilha de contação de estórias.

O que me faz retornar ao primeiro parágrafo desta resenha: – será que minha amiga de devolve o presente?  Acho que não, vou comprar o meu exemplar.

“Aqui repousa a flor de um povo que sabe morrer.” – inscrição no Memorial à Segunda Guerra Mundial, na Bósnia.

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