Arquivo da categoria ‘Patricia Melo’


21823741_4Romance policial, paródia, crítica ao mundo editorial, humor negro?

                        Uma bióloga planeja matar seu marido com uma picada de cobra num hotel fazenda, onde não pode ser encontrado soro anti-ofídico. Fúlvia Melissa vê no interesse por cobras do escritor José Guber a chance de transformá-lo em cúmplice, já que ele escreve livros sobre assassinatos. Eles acabam se tornando amantes e… o resto vocês podem imaginar.

A revelação de que os romances de banca – seja qual for o gênero – são como uma linha de montagem automática de uma fabriqueta qualquer, cheia de regras de pode-não-pode, não me era desconhecida.  Há umas décadas, trabalhei como datilógrafa (isso mesmo: de máquinas de escrever) para uma senhorinha de cabelos brancos, que escrevia romances de far-west, sob vários pseudônimos diferentes, todos estrangeiros e masculinos – à velocidade de 2 por mês.  Mas a idéia ainda me é bastante inquietante.

Também é deslavada a cara-de-pau de José Gruber, em copiar a trama principal de clássicos da literatura policial internacional, como: O gato preto e Os crimes da Rua Morgue, ambos de Edgar Allan Poe, e O assassinato de Roger Ackroyd de Agatha Christie – e seu editor, Wilmer não reconhecer nenhuma delas, pela sinopse.

Minha primeira impressão, logo na primeira página foi muito ruim.  Embora entenda que a autora queria mostrar logo de cara o caráter dúbio da personagem de Fúlvia Melissa, e embora soubesse sua profissão de pesquisadora de ofídios (cobras e assemelhados), a idéia do coelho sendo devorado impiedosamente, me causou repugnância.

Não gostei da apresentação dos diálogos.  Sei que a intenção foi a de passar uma correria normal na conversa entre dois cúmplices de um assassinato, mas mesmo assim, tinha horas que eu não sabia mais quem falava o que.  Há que se inovar – bem sei – mas também há que se ter um mínimo de respeito pelas regras de pontuação da gramática brasileira.

Não gostei da opinião expressada através do personagem José Gruber, de que donas de casa, manicures e corretores “jamais leriam os clássicos”.  Ao plagiar as verdadeiras tramas, em estórias de banca, ele estaria, na verdade, fazendo-lhes um favor. – não gosto de romances de banca, nunca os compraria, mas respeito minhas amigas que os lêem – e algumas são bastante cultas.

Logo na página 26, eu já tinha previsto toda a trama que ainda viria – com riqueza de detalhes – isso me broxou bastante.  Preciso de ver desafios num thriller – porque, senão, não é um thriller, para mim.

ICE_HUNT_1369509037PA estória do sapo cataléptico eu também já conhecia – acabei de ler e de resenhar um livro maravilhoso de James Rollins, Ice Hunt (resenha no blog: https://houseofthrillers.wordpress.com/2013/06/22/ice-hunt-james-rollins/ ), em que são descritas as características de uma forma de animação suspensa, que certas espécies de tartarugas e rãs experimentam, porém ainda vivos, por conta de uma questão de açúcar em glândulas especiais.

Entretanto, gostei da estratégia bolada pela mãe de José Gruber para enfrentar em alta e viva voz, os vendedores ambulantes de pamonha e similares.

Por fim, para enterrar de vez qualquer resquício de admiração pelo livro, José Gruber declara que é “uma coisa interessante de criar cobras, (…) é que não existe aquela relação pegajosa, aquela necessidade doentia que os gatos tem de afago.” – essa frase, para uma adoradora de gatos como eu, dona de 2 felinos lindos e deliciosamente carentes de afagos, é um pecado mortal!

Sei que serei apedrejada, mas, em resumo, gosto é gosto – e o que é de gosto regala o peito! #prontofalei!